Não costumo dar muita corda pra psicanálise também, mas gente inteligente e erudita já me falou que as coisas mais contemporâneas têm algum valor. Em outras palavras, ele dá seu voto de razoável confiança naquilo.

Sendo o sujeito inteligente, essa confiança muito provavelmente* passou por um processo razoável de questionamento, análise, e revisão. O sujeito, ao invés, dando sinais de ser burro, não realizando esses processos de maneira de maneira rigorosa o suficiente, fica mais provável que a crença que ele tem seja, de fato, bullshit.

(E um som ecoa para introduzir o primeiro elo fraco: “Premissa número um.”)

Notem como eu defini burrice: não ser racional o suficiente. O que é ‘o suficiente’? Digamos, uma chance de 90% de ter escolhido a melhor opção disponível, dada a qualidade das evidências e argumentos disponíveis, para qualquer nódulo (uma crença) do Web of Belief.

Mas não é possível que UMA crença importante aceita levianamente contamine uma boa parte do Web of Belifs, se ela estiver numa posição-chave? Não é estável ter 90% de chance de avaliar um nódulo da sua rede corretamente (to the best available…). Em alguns momentos, cuja frequências é regida pela frequência de crenças-chave na rede completa, crenças-chave serão incorretas.

Supondo que essas crenças-chave existam, — os nódulos com muitas conexões com nódulos com bastante conexões com nódulos etc., — me parece seguir que sua falsidade afetaria uma “região” de crenças, as it were. Essa região inteira ganha probabilidade de receber um julgamento leviano, apressado, pois já aceitamos uma das premissas importantes para aceitá-lo.

Caso meu modelo da rede de crenças (que pode ser pensada como rede conceitual, ou rede de julgamentos) e inferências a partir dele esteja correto, a probabilidade do nódulo médio ser corretamente julgado (o que não é sinônimo de ‘verdadeiro’, mas como realista científico e otimista filosófico tendo a achar que há uma correlação) vai cair de 90% pra, sei lá, 85%, e então pra 80%, e vai caindo até achar um ponto de equilíbrio.

Onde é esse ponto? Varia de pessoa pra pessoa. Se eu tenho disposição cética e me esforço para caralho nas minhas crenças, a probabilidade estável dos meus julgamentos serem confiáveis (sim, troquei de terminologia no meio do ensaio, me processe) vai ser um nível alto. Para uma pessoa mais comunzinha, não tão alto.

OK, mas qual é o MEU ponto? Qual é o ponto do cara que discorda de mim? Qual o ponto dos intelectuais que rejeitam o que rejeito? Será que meu ponto é muito abaixo do melhor possível na nossa época, e pior, abaixo do ponto de outros caras?

Isso entra no quão confiante estou sobre meus julgamentos. Ultimamente, tenho tido dificuldade para decretar para mim mesmo que o outro cara é um idiota. Talvez eu esteja errado, e ele certo. Ou, mais irritantemente ainda, estejamos os dois errados e a porra do conhecimento está bem escondido dos seres humanos! Quando o cara demonstra ser inteligente e erudito, fico mais receoso ainda. Menos chance de ele ser mais idiota que eu!

Meu ego desinflou horrores quando passei a me ver quase que sub specie aeternitatis (comparando com os melhores pensadores, ou o pensador ideal), ao invés de sub specie humanitatis (nossa… sou menos gullible do que pessoas normais… parabéns pra mim). Toda hora penso que a qualidade do meu raciocínio é inadequada, então tenho que tomar cuidado com todos os passos de qualquer julgamento que até então eu tinha.

Isso ainda não aconteceu com vários julgamentos meus, que são as coisas que eu “tenho opinião” e “tenho algo a dizer fora «ei galera vamos investigar essa hipótese»”. O vírus da insegurança se espalhou ao ponto de me fazer dar corda para psicanálise contemporânea, modernosa, com alegadas boas relações com a chamada ‘psicologia científica’. Não sei se isso é um sucesso, ou um fracasso.

Suspeito que seja um sucesso, pois me fez notar que eu não conheço o mais contemporâneo e válido. Só conheço o lixo. Vai ver algum professor da Unicamp aqui já descartou o lixo, e analisa com métodos bem diferentes e com fins distintos da quasi-hard science que Freud pretendia.

Dei esse circunlóquio para explicar porque não jogo Zizek no lixo. Sim, quando um fellow young IFCHian fã do Zizek aparece, discarto como um crédulo. Acho que corretamente. Mas Zizek convenceu gente boa – ao mesmo tempo que NÃO convenceu MUITA gente boa também. Tenho que ser tão criterioso e ter uma compreensão tão adequada quanto os melhores dentre os grupos. Até então, so julgamentos temporários, impressões, opiniões fracas, suspeitas, linhas de inquérito, e promising leads.

(Nota: Não estou indo contra o que eu disse no meu texto sobre agilidade mental e erudição. Naquele texto, escrevi com uma assertividade e intensividade de quem firmemente acreditava que seres humanos costumam ser completamente inadequados para raciocinar. Kant e Hume, Descartes e Spinoza, Wittgenstein e Russell, ou qualquer outro par de Grandes em forte discordância – pelo menos um deles está muito errado sobre coisas muito importantes.)

Ainda concordo com isso, mas nesse texto estou olhando fundo nas implicações dessa tese: talvez EU seja o idiota! Será que eu não deveria ser mais criterioso? Será que eu posso concluir o que acabei de afirmar? And so on.

Aí fico com o seguinte predicamento: ou eu sou mais cuidadoso do que ou Foucault ou Raymond Aron (outro desses pares), ou eles tem mais chances de estarem certo do que eu. Posso rejeitar sem me assegurar disso? Posso estudar muito e tentar aumentar a probabilidade de estar certo – mas irei, um dia, atingir uma probabilidade maior do que a deles?

Talvez, por estar entrando nas teorias ‘with fresh eyes’ ou por ser mais rigoroso, isso seja possível. Talvez, seja impossível, perda de tempo, se minha força-motriz for a busca pela Verdade.

Como não sei qual é o caso, só faz sentido continuar na jornada na ESPERANÇA DE que eu estarei sendo mais rigoroso do que eles. (Ainda considerando que o que busco são proposições inteligíveis e verdadeiras, isto é, verdades.) Essa esperança só existe porque eu NÃO SEI quem é mais rigoroso, entre as maiores mentes que ponderaram sobre uma dada questão que eu estiver considerando.

Leap of faith.

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