A conclusão do dito paradoxo não me é contra-intuitiva: observar um queijo pode, sob certas condições, dar-nos uma evidência que todos os objetos não-pretos são não-corvos e, portanto, que todos os corvos são pretos.

Suponha que existem 1.000.000.000 objetos não-pretos no mundo, e eu não sei qual o caráter deles (limões, all-stars, queijos, bolas de basquete, corvos…). Como desconheço o caráter destes objetos não-pretos, e eles poderiam ser corvos, então digo que eles são corvos não-pretos em potencial – ou, equivalentemente, contra-exemplos em potencial para minha hipótese que todos os corvos são pretos. Se eu observo 1.000.000 desses objetos aleatoriamente e nenhum deles é um corvo, então restam apenas 999.000.000 objetos não-pretos, ou seja, apenas 999.000.000  contra-exemplos em potencial.

Desta maneira fica bastante intuitivo, e alguém que conhece o formalismo de estatística poderia formular a ideia mais rigorosamente. Colocando em termos estatísticos mas não em termos matemáticos, a chance de haver um corvo dentre os objetos não-pretos diminui conforme se tirar objetos não-corvos aleatoriamente do conjunto de objetos não-pretos de caráter desconhecido.Uma analogia pode deixar a ideia ainda mais intuitiva: se tenho uma caixa com 100 esferas (equivalente: não-preto) de cor desconhecida (equivalente: caráter desconhecido), conforme eu tirar bolinhas não-vermelhas da caixa a chance de não haver uma única bolinha azul lá dentro aumenta.

Assim, fica claro que observar objetos não-pretos desconhecidos pode fortalecer em alguma medida a tese que todos os corvos são pretos. No entanto, me parece claro que observar um objeto não-preto desconhecido na sua geladeira, e descobrí-lo um queijo, não fornece tanto embasamento para a hipótese quanto observar um corvo preto diretamente.  Se você está observando objetos não-pretos na sua geladeira, você não está observando objetos não-pretos aleatoriamente, mas de uma maneira altamente selecionada contra a probabilidade de qualquer corvo aparecer. A mesma coisa seria o caso caso se vá na Casa dos Queijos tentar refutar a hipótese dos corvos negros. Ainda há algum módico de suporte para a hipótese, a observação da geladeira, mas é um suporte tão diminuto que não deve causar estranhamento.

Nelson Goodman argumenta, e Israel Scheffler também, que observações de gabinete também também podem confirmar outras hipóteses. Primeiro, que todos os corvos não são pretos. Esta hipótese é equivalente a “tudo que é corvo não é preto,” ou seja, “tudo que é preto não é corvo.” Observe um objeto preto e não-corvo, como um smartphone, e teremos confirmação para esta hipótese.

Segundo, que “nada é corvo nem preto,” que é equivalente a “tudo que é, não é corvo nem preto,” o que é confirmado pela observação de qualquer existente que não é corvo nem é preto, como um chinelo branco. De fato, todas essas três hipóteses são confirmadas pela observação de objetos ordinários: ∀x(Cx → Px), ∀x(Cx → ¬Px), ∀x(Px → Cx), ∀x(¬Rx & ¬Bx). Também temos que a observação de um corvo preto confirma esta hipótese: ∀x(Rx & Bx).

Tenho confiança, mas até agora sem fundação, que é possível entender como tais confirmações estranhas ocorrem em termos estatísticos. Mordemos a bala e as aceitamos em nossa lógica da confirmação. (Adição em 14/10/17.)

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