Papai um dia me disse que minhas leituras e discussões são sobre tópicos que pertencem à torre de marfim – assuntos sem consequências práticas senão a satisfação da curiosidade intelectual de poucos. (Por exemplo: discussões sobre a origem evolutiva do ser humano, sobre a natureza do tempo, sobre o funcionamento do córtex visual, sobre as pré-condições para a racionalidade epistêmica, ou sobre o que aconteceu logo após o Big Bang.) Como consequência, meu estilo de vida (que consiste justamente nas tais leituras e discussões) é um estilo de vida parasitário, e portanto minha pretensão de continuá-lo moralmente condenável. Não trabalho, em breve receberei bolsa para continuar lendo e pensando sobre temas que só poderiam ser chamados de esotéricos, e daqui cerca de dez anos possivelmente serei pago para fazer essas mesmas coisas. Em suma, não contribuo e nunca contribuirei significativamente para a sociedade, e apenas consumo seus recursos.

A linha de pensamento é extremamente plausível e razoável, e fiquei pensando nela no fundo da minha cabeça durante alguns meses. Acho que a melhor maneira de explicar o ponto de vista que eu formei é com uma analogia. Suponhamos que estamos em 1974, e meu pai está prestes a se formar engenheiro mecânico. Ele consegue um emprego logo ao sair da faculdade, num escritório de design e testes de motores de Go Karts. Passam alguns anos, e a habilidade e paixão dele pelo design de motores e outros aspectos de automóveis são nítidas e percebidas pelos outros. Meu pai consegue ganhar dinheiro e tem boas chances de conseguir seguir uma carreira proveitosa nesse ramo, e está planejando seguí-la. Será que seria realmente razoável dizer ao meu pai em, digamos, 1975 o seguinte?

“Construir carros rápidos não contribui muita coisa pra sociedade, contribui tanto para a sociedade quanto o design de jogos do Pokémon e especulações sobre a natureza da mente humana- só serve pra entreter quem tem tempo livre. Não erege moradias, não salva vidas, não aumenta a produtividade das fazendas, não tem um impacto real no mundo. Seguir essa carreira  seria levar uma vida parasitária.”

Realmente, se uma pessoa escolher essa carreira, ela não estará maximizando o benefício que gera ao mundo, e quem sabe nem gerando algo proporcional a todos os recursos que foram investidos na formação e manutenção do estilo de vida dela. No entanto, eu acho que poderia ser perfeitamente aceitável seguir essa carreira. O dever cívico, o dever humanitário, enfim, o dever ético não deve ser negligenciado, e neglienciá-lo sob estas condições de fato seria um parasitismo moralmente condenável. Mas há uma maneira de atender aos deveres éticos e ainda assim perseguir a carreira dos sonhos.

A visão que tenho construído em minhas reflexões, leituras, e discussões sobre valores, virtudes, e a vida, é a seguinte. Se eu vou seguir uma carreira de filósofo habitante da Torre de Marfim – isto é, eu vou estudar filosofia, mas não vou escrever livros populares sobre ética aplicada, nem escrever colunas fazendo críticas à filosofia política de um dado governo vigente, nem usar minhas habilidades argumentativas e preferências intelectuais para escrever algo que mude a cabeça das pessoas (que são todas coisas que eu posso acabar por fazer, mas isto está além do ponto do texto) -, mesmo assim, eu ainda poderia ter uma vida virtuosa, de excelência ética. Assim como meu pai poderia ter uma vida virtuosa sendo um engenheiro da Fórmula 1, ou alguém poderia ter uma vida virtuosa ganhando a a vida jogando video-game, ou fazendo um curso de Moda.

O primeiro tipo de dever com os outros que eu serei capaz de atender é, talvez, o mais urgente: ajudar substancialmente aqueles que contam comigo, aquelas pessoas com as quais desenvolvi relações de afeto. Se eu uso os recursos financeiros para ajudar um primo obeso de 45 anos que precisa fazer uma ponte de safena cujo preço total o seguro não cobre, eu vou fazê-lo (assumindo que não estou na absoluta pindaíba). Se meu pai ou minha irmã de 75 anos estão severamente doentes e precisam de cuidados médicos e auxílio durante o dia-a-dia, eu vou ajudá-los. Se, seguindo o caso absolutamente exemplar do meu pai, a emprega doméstica que trabalha em casa foi despejada (por gastar todo seu dinheiro tentando desesperadamente quebrar o ciclo da pobreza na sua família), e precisa de um lugar pra ficar, eu vou fornecê-lo. É isso que eu levo para a vida, é esse um valor que se encrosta em mim quanto mais amadureço. É algo extremamente substancial que uma pessoa na Torre de Marfim (seja criando jogos, argumentos filosóficos, ou motores mais potentes) pode e deve fazer.

O segundo tipo de dever com os outros depende de outras condições, mas também me parece urgente: satisfeito meu primeiro dever, meu maior dever com os outros é praticar altruísmo efetivo. Muita gente nos Estados Unidos pratica algo que é talvez tão eticamente efetivo (e portanto desejável) quanto ser clínico geral numa comunidade carente de São Paulo ou advogar para pessoas pobres a baixo custo: earning to give. É um tipo de altruísmo efetivo (em contraposição ao altruísmo não-efetivo, como dar esmola, doar para o Criança Esperança, ou doar para uma instituição corrupta como a Cruz Vermelha). Pessoas que praticam o earning to give trabalham em algo rentável (digamos, com ciência da computação no Vale do Silício), e doam uma parte substancial (digamos, 20%, 30%, ou até 50%) para organizações internacionais que fazem a diferença. (A efetividade e transparência dessas organizações sendo rigorosamente inspecionadas por pessoas no mundo inteiro, de filósofos de Oxford até agentes da Anistia Internacional.)

Essa é a segunda maneira pela qual uma pessoa buscando a própria felicidade (e que felicidade maior há do que trabalhar com aquilo que mais te interessa, seja motores de F1, criação de jogos, ou temas intelectuais?) pode executar uma vida virtuosa, de excelência ética. Isso é algo que tenho muita vontade de fazer, e tenho amizade com pessoas que fazem isso com vigor. Faz parte do meu plano de vida, e certamente é algo que eu farei com intensidade se eu conseguir fontes de renda que me dêem, on average, dinheiro de sobra (e é obrigação moral minha ter uma vida frugal para que o dinheiro possa sobrar).

Eis o plano que tenho para minha vida. Vou tomar essa oportunidade de ouro que me foi dada de buscar minha felicidade plena e dedicar minha vida ao que me interessa mais ardentemente, sem nunca negligenciar uma pessoa próxima ou um ente querido que precise dos meus cuidados e, se praticável, não negligenciarei outros deveres éticos, e enriquecerei minha vida com a prática de um altruísmo efetivo: earning to give what I can.  Existem, de fato, muitas maneiras de fazer isso, o que é muito interessante.

Satisfeitas essas condições – ajuda às pessoas próximas e às pessoas com necessidade -, me parece perfeitamente aceitável seguir uma carreira dos sonhos que não contribua muito para a sociedade. Criar estátuas, escrever obras filosóficas, aprimorar motores de Fórmula 1, criar jogos de tabuleiro, compor jingles, estudar a origem do Universo ou a origem da Terra, descobrir novos teoremas matemáticos ou as equações matemáticas que regem o pool gênico das espécies, etc. são todas atividades provavelmente igualmente inúteis. Não eregem prédios, não salvam vidas, etc., mas ainda assim são carreiras perfeitamente legítimas. A excelência ética (nossa contribuição para a sociedade) pode ser atingida de outra maneira, e não precisamos nos tornar engenheiros ou médicos ou professores de rede pública para isso.

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