I
Sempre me pareceu plausível a ideia que o que importa na vida é a felicidade, que também chamo de satisfação. O experimento mental de Robert Nozick da Máquina de Felicidade foi criado para atacar esta visão. É comum reagir à proposta de entrar na Máquina negativamente. Parece que há algo que falta quando entramos na Máquina de Felicidade: liberdade e conhecimento.

Gostaria de dizer que eu não creio que a liberdade e o conhecimento são condições necessárias para a felicidade. Como Burrhus Skinner disse um dia, o que é necessário para a felicidade não é o conhecimento ou a liberdade, mas sim a ilusão de conhecimento e de liberdade.

O que está em jogo, então, não é se o conhecimento da verdade e a liberdade são instrumentos para se atingir o fim último, a felicidade ou satisfação. Na verdade, o conhecimento e a liberdade são valores que competem com a felicidade. Para muita gente, não parece valer a pena ser feliz e ser enganado e não ter liberdade genuína.

O experimento mental de Nozick coloca a questão da seguinte maneira. Suponha que eu proponho que você entre na Máquina de Felicidade. Sua memória de ter tomado essa decisão será eliminada, junto com quaisquer outras memórias que podem te levar a crer que você está numa Máquina de Felicidade. A Máquina, então, manipulará todas as suas experiências perceptuais, mas não o seu cérebro diretamente (além das memórias apagadas, nada acontecerá – suas faculdades críticas continuarão intactas), de tal modo a fazer você crer que está no mundo real (conhecimento) e está no controle das coisas (liberdade), e ao mesmo tempo gerar um mundo que te fará imensamente feliz.

Se você gosta de música e sempre quis ser um músico, a Máquina te fará acreditar que você encontrou por acaso um grande professor de violão, que descobriu em você um imenso talento, e gradualmente você adquirirá uma habilidade musical tão absoluta quanto a de Bach e de Mozart. Não tardará até que aparecerá uma pessoa maravilhosa, pela qual você certamente se apaixonará perdidamente, e que se apaixonará perdidamente por você. Sua saúde continuará intacta até o último dia de sua vida, e seus orgasmos serão prolongados anormalmente. Sua inteligência será aumentada, seu prestígio será universal, e as coisas que você deseja ver acontecer no mundo, de fato acontecerão.

A pergunta que Nozick faz é: você toma a pílula vermelha, ou toma a pílula azul? Você abre mão de seu conhecimento do mundo real e de sua liberdade para ser feliz, ou você continua no mundo imperfeito, que te deixa insatisfeito, para preservar a sua liberdade e o seu conhecimento?

Essa questão é similar a uma questão que eu estava discutindo com um amigo recentemente. Pessoas que nasceram e cresceram em tribos primitivas costumam crer que a sua posição naquela sociedade rigidamente hierarquizada, e as coisas que acontecem em sua vida, são justas e ordenadas por alguma força superior. De tal modo, pessoas que vivem em sociedades tribais costumam ser mais satisfeitas com as suas vidas do que pessoas que nascem em sociedades como a nossa, que nos ensinam que o mundo não é justo e não há objetivo final na vida. Pelo menos, esta é uma hipótese que entretemos durante nossa conversa para que pudéssemos investigar uma outra questão.

Nos perguntamos se seria mais desejável nascer na sociedade tribal, em que há pouca liberdade (ao menos, na hipótese que entretemos para fins de conversa) e pouco conhecimento, mas ampla satisfação, ou nascer na sociedade civilizada, em que muita liberdade e muito conhecimento, mas considerável insatisfação.

Decidir qual a melhor decisão requer ponderar se a liberdade e o conhecimento são apenas instrumentos para a felicidade, ou se são fins em si pelos quais vale a pena sacrificar felicidade para obter. Isso pode afetar como tratamos sociedades tribais, em que as pessoas podem não ter liberdade e acreditar erroneamente sua falta de liberdade é justa, e ao mesmo tempo serem mais felizes do que seriam caso fossem civilizadas.
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II
Enquanto pensava sobre questões de identidade pessoal, cheguei a algumas conclusões que me fizeram repensar minha atitude em relação à Máquina de Felicidade de Bob Nozick.

É uma pré-condição para recebermos os benefícios da Máquina que algumas de nossas memórias sejam apagadas. Dentre estas memórias, está a memória do momento em que tomamos a decisão de entrar na Máquina. Pode ser o caso nós relutamos para decidir entrar na Máquina pois sabemos que, uma vez dentro da Máquina, será completamente apagada de nossa cognição qualquer traço dessa decisão. É uma decisão que apaga seu próprio histórico, e isso nos faz sentir que a pessoa dentro da Máquina de Felicidade será, em algum sentido importante, uma pessoa diferente do que nós somos enquanto tomamos a decisão.

No entanto, hoje tenho reservas em relação a essa hipótese. De qualquer modo, depois da discussão com meu amigo, cheguei em um experimento mental que compara, de um lado, entrar numa sociedade primitiva, hierarquizada, e ignorante (acreditaremos que somos subjugados por uma autoridade justamente – it’s out lot in life), que é como uma Máquina de Felicidade, e do outro lado, entrar numa sociedade avançada, com mobilidade social e amplas liberdades civis, e amplo conhecimento, que é… bem, com o mundo real: insatisfatório.

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