Eu sou moralmente indecente, e reconheço este fato.

Meu pai um dia me ouviu dizer estas palavras, e ficou surpreso com como eu poderia crer que estava sendo moralmente indecente, e mesmo assim não fazer nada sobre isso.

Eu não acho que eu seja especialmente insensível com a moralidade. Eu creio que as outras pessoas, caso soubessem o que eu sei sobre a moralidade de nossas ações e omissões, seriam em média igualmente inativas. (Não meu pai, eu creio.)

Eu acho, na verdade, que eu sou especialmente realista com a moralidade. As outras pessoas é que estão cegadas em relação ao que fazem de errado. As causas devem ser muitas, e uma bem interessante se chama ‘self-serving bias’.

Seres humanos costumam ter uma imagem positiva de si, e se vêem como, fundamentalmente, moralmente decentes. Não são moralmente exemplares, pois não fazem tudo que poderiam fazer e reconhecem isso. (Não fazem o que é moralmente supererrogatório.) Cometem alguns erros aqui e ali, agem de forma um pouco egoísta ou um pouco abusiva, mas seu quadro geral é de decência moral, pensam.

Humanos mantêm essa visão de si de duas maneiras: primeiro, procuram por evidências de sua decência moral. Eventos que indicam esta decência ficam salientes em suas mentes, são recordados com mais facilidade, e são integrados na narrativa que a pessoa conta sobre ela mesma: as boas ações e as autorrestrições de fazer uma má ação.

O segundo é mais interessante: ignoram e resistem evidências de sua indecência moral. Diminuem a importância de suas más ações e suas omissões, e tendem a não pensar muito sobre isso. Quando indagadas sobre o hábito de comer animais, ou sobre a ética do consumo supérfluo num mundo de famintos, a reação é de desconsiderar o quão errado seria agir como elas sempre agiram.

Assim, as pessoas mantêm um conjunto razoavelmente estável de valores, que não admite de grandes chacoalhadas – porque, do contrário, teriam que concluir que até então estavam sendo moralmente indecentes. E isso é inaceitável.

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