Sinto uma boa dose de saudade dos tempos em que eu digladiava verbalmente. Eu denunciava a ignorância, os subterfúgios intelectuais, e a falta de perspicácia alheia — ao engajar num discurso de desmonte, humilhação, e afronta, me pensava alguma espécie de paladino dos bons hábitos mentais, do conhecimento científico, do entendimento filosófico e, enfim, um higienizador do debate público, que expunha a sujeira intelectual. Há uma oposição entre dois estilos nos quais essa empreitada poderia ser realizada:

Primeiro, com a oratória colorida e vigorosa, tecendo comentários afiados e acusadores, com o claro fim de ridicularizar a fraqueza intelectual de uma pessoa oponente. O entristecedor é que se coloca numa posição em que é impossível *sair bem* caso se revele, após tantas alfinetadas ou francas facadas, estar errado afinal. “O patético era eu, no final das contas!” — não há como deixar de sentir-se rebaixada, e assim as pessoas verão.

Segundo, com a oratória acalmada, as palavras desenhadas para atiçar o intelecto e suprimir as emoções de quem ouve, uma dissecação analítica que mira sempre a possibilidade de equívoco por parte de quem está a denunciar. Não há como deixar de notar que a pirotecnia retórica engendra o entusiasmo e angaria ouvintes, amplificando o alcance da denúncia e efetivando a higienização conceitual com mais potência, enquanto o exame enrigecido atrai apenas aquelas pessoas que já estão *salvas*, de boa educação intelectual, com as atitudes condizentes com o mercado aberto das ideias e habituadas a padrões ilustrados de pensamento.

Que dilema! Deve-se engajar numa empreitada Quixotesca contra o poder da eloquência de seduzir a mente dos humanos *sem* a segurança epistêmica da razão acalmada, vivendo exemplarmente à expectativa de influeciar outras a estimar como nós aqueles que apelam à nossa faculdade de raciocínio ao invés da nossa volúpia por demonstrações de poder oratório — mas falhar terrivelmente em rodear-se de ouvintes assíduas e numerosas — deve-se fazer isso?

Na encruzilhada, se avista a boa oradora amplamente vista sob pulsante admiração, transpirando influência e de fato *marcando* sua geração — afinal, não lembramos Marcus Cícero, Voltaire, Thomas Henry Huxley, W. E. B. Du Bois, Joaquim Nabuco, Martin Luther King, todos pelo seu incrível poder oratório, por escrito, em anfiteatros, e em manifestações públicas? Ah!, que recompensa atormentadora tantalizante a se ter pelo grave preço de se propagar um dos mais vis hábitos do debate público, o exercício da eloquência para *demolir* e *derrotar* uma oponente, satisfazendo o tesão mais insofisticado do público pela carnificina dialética! (Deve-se lembrar que a assunção implícita de infabilidade em uma denúncia acusadora não deixa de surtir seu efeito, impedindo que a boa estima pública acompanhe aquela que ousar retratar-se!

(Acima, sacrifiquei a clareza pelo estilo no maior das vezes, quem sabe transitando entre a aridez da calma razão e a verve (o calor! o entusiasmo!) da prosa emotiva. — Bem na verdade, eu não estava me envolvendo em um discurso de *desmonte, humilhação, afronta*, e portanto a oposição que eu desenhei não se aplica ao meu próprio discurso, mas deve-se dizer que há *algum* balanço entre precisão e eloquência no texto, quem sabe próximo ao desejável à figura obstinada que tentar exercer algum efeito sobre o curso das ideias em seu país!)

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