Há algumas semanas eu estava a conversar com um amigo meu, e a conversa foi mais ou menos assim.

  • Argle: Não existem verdades, mas apenas interpretações.
    Bargle: Deveríamos dizer que isto que você acabou de dizer é *verdade*?
    Argle: Não, evidentemente; se trata de uma mera intrepretação.
    Bargle: Eu suponho, então, que seja *verdade* que se trata de uma interpretação?
    Argle: Esta pergunta não faz sentido!
    Bargle: Pode até ser, mas neste caso seria *verdade* que não faz sentido, não seria?
    Argle: Não vamos chegar a lugar algum assim! Temos que ir *além* da verdade.
    Bargle: É possível que você esteja correto, e seja *verdade* que devemos ir além da verdade…
    Argle: Argh!

Dentre outras coisas, isso me fez pensar em uma solução para um paradoxo que eu havia me colocado há algumas semanas também. O paradoxo é o seguinte: podemos oferecer *razões* para crermos que (i) é possível dar razões para algo (que boas razões e justificações existem) e que (ii) existem verdades?

A falha miserável de Argle de afirmar qualquer coisa sem que possamos dizer desta coisa que ela é verdadeira, sugere a seguinte concepção sobre a relação entre crença, afirmação, e verdade: em nossos conceitos/estados mentais de *crença* e de *afirmação*, estão inscritas nossas noções de (i) *justificação* (razão) e (ii) *verdade* (O diálogo sugere apenas ii. Mas adiciono i como uma tese adicional.)

Esclareço o que isso significa: não se pode acreditar/afirmar que P sem tomar aquilo como verdade — a toda crença/afirmação que P está atrelada uma CRENÇA que (i) há justificação para crer/afirmar que P e (ii) é verdade que P. (Acho que K-firsters vão reconhecer essa ideia: que quem acredita que P acredita que sabe que P, ou coisa assim!)

Esclareço mais ainda: a agente S só estará *afirmando* que P caso acreditar que P. Além disso, a agente S só estará *crendo* que P caso (i) acreditar que há justificação (razões) para P e (ii) acreditar que P é verdadeiro. (Mentiras e atuações não apresentam problemas: a afirmação mentirosa pretende ser «tomada» como verdadeira, enquanto a falante crê a negação da afirmação como verdadeira — enquanto a afirmação “ficcional” numa peça de teatro pretende representar uma personagem que acredita na afirmação.)

Se isso estiver certo, então parece que não podemos “pular para fora do sistema” e crer/afirmar/perguntar/duvidar se (i) há razões e justificações ou *não* ou se (ii) há verdades ou *não*. Estas noções estariam inscritas em qualquer processo mental de *pensamento*: investigar, duvidar, perguntar, acreditar, afirmar, entreter, *entender*. Há uma relação estrita demais entre crer/afirmar (etc.) e as noções de justificação (razão) e verdade para que essas crenças e afirmações sobre questões “meta” acerca da justificação (razão) e da verdade *façam sentido*.

Bem na verdade, não sei se (A) há como *entender*, genuinamente, a ideia que não existem verdades, pois me parece que entender uma afirmação/crença é entender como aquilo seria *verdadeiro*! // Não sei, também, se (B) há como *crer* na ideia que não existem razões para crer, pois me parece que crer em P requer crer que há razões para crer que P. É possível crer sem razões, mas não é possível crer *que* não há razões. (É possível que S acredite que ela própria acredita que não há razões, mas ela estará enganada, pois esta crença é impossível. Não sei se seria análogo a crer que existem círculos quadrados, o que parece ser *impossível*, mas algo parecido.)

(Estou mais confiante de (A) do que de (B).)

Assim, examinemos a proposição que gerou o paradoxo de “dar razões para a razão”. Chamemo-na de “Px”, de paradoxo: «A crença “é possível oferecer razões” requer (em algum sentido) razões oferecidas em seu favor.»

Se a análise acima estiver correta, então a crença/afirmação “Px” requer (i) a crença que há razões para crer que Px (o que imediatamente implica que é possível oferecer razões) e (ii) “Px” é verdadeira. (Não nos demoremos em problemas de disquotation, etc.) — As implicações disto são deliciosas: acreditar ou afirmar que {é preciso oferecer razões para crer que {é *possível* oferecer razões}} requer acreditar que {é *possível* oferecer razões}.

(Note uma outra implicação: acreditar ou afirmar que {não é possível oferecer razões} requer acreditar que {é possível oferecer razões}.)

Certamente chegamos em um nó interessante! O que será que segue deste nó? Meu palpite é: não é possível crer ou afirmar de si próprio que {eu não tenho razões para crer que {é possível dar razões}}, pois concomitante a esta crença teríamos a crença {tenho razões para crer que {eu não tenho razões para crer que {é possível dar razões}}}.

Esta última crença implica na crença {tenho razões para crer em algo}, e então na crença {tenho razões para crer que é possível dar razões}. Então, estas duas crenças andariam juntas, se a crença K fosse possível: (K) NÃO TENHO RAZÕES PARA CRER QUE É POSSÍVEL DAR RAZÕES, (L) TENHO RAZÕES PARA CRER QUE É POSSÍVEL DAR RAZÕES. Contradição! Logo, a crença K é mentalmente impossível. Senão isso, então ela é incoerente. Justificação, verdade, crença, e afirmação estão tão entranhados que não se pode acreditar ou afirmar de si que não há justificação em nada do que se acredita ou afirma, ou que não há verdade em nada do que se acredita ou afirma.

Ainda não cheguei ao fim. Resta explicitar alguma contradição ou impossibilidade no estado de crer ou no ato de afirmar que Px. Parece que qualquer pessoa que crer ou afirmar que Px estará respondendo um enfático “Sim!” para a questão colocada por Px: «*Sim!*, é possível oferecer razões para crer em algo, pois de outro modo não poderíamos fazer a pergunta “Px?” nem a afirmação/crença “Px!”.» Q.E.D.

(Escrevi estes trechos finais ouvindo à macabra Toccata in D Minor, BWV 565 do sr. Bach. Me senti executando uma pessoa meticulosamente.)

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