Está no debate público há anos uma polêmica acerca do que é ser uma pessoa feminista. A polêmica não parece ser sem motivo: o feminismo é tanto um conjunto de ideias quanto um movimento real, e isso leva a confusões. É natural que existam pessoas que concordem com ideias caracteristicamente feministas, mas não aprovem em geral o movimento real e assim se chamem de anti-feministas ou simplesmente não-feministas. O mesmo acontece há alguns anos com o ateísmo: temos pessoas que crêem que Deus não existe se dizendo não-ateias, por não estimarem em geral o movimento social que pessoas ateias têm feito, o chamado neo-ateísmo.

Foi comum dizer, em reação a isso, que o feminismo nada mais é do que a estranha crença que as mulheres merecem direitos iguais aos dos homens: não basta muito para ser feminista, basta sensatez. Esta disputa é terminológica, e este tipo de disputa tem efetividade duvidosa. Devemos usar o termo ‘feminismo’ para designar um conjunto puro de ideias de qualidade, — digamos, a nata do pensamento feminista, — ou para designar um conjunto de ideias difundidas, defendidas, e praticadas em um movimento concreto, com suas múltiplas facetas e sua sujeira demasiadamente humana? Fôssemos donas do mundo, as pessoas seriam, senão uniformes, ao menos claras em suas práticas terminológicas. Não sendo este o caso, parece valer (no mais das vezes) mais o nosso tempo de ativismo discutir questões de fato, ao invés de questões terminológicas. Quando uma ambiguidade surgir, perguntemos: “O que você quer dizer por ‘feminismo’?”

Deixemos de lado então a discussão sobre o que seria “o” feminismo, e pensemos sobre as variedades de feminismo que existem. Será instrutivo considerar o rol de questões e disputas que entram no escopo do feminismo, e pensar que tipo de posições acerca destas questões configurariam uma variedade do feminismo. A pessoa que estiver lendo está convidada a pensar comigo sobre o seguinte: Às perguntas abaixo, que tipo de respostas são comuns no meio feminista? Que tipo de respostas não seriam de modo algum respostas feministas? Por fim, quais são as respostas mais plausíveis e provavelmente corretas? — Ao final, teremos uma ideia muito mais nítida do que é ser feminista e quais exatamente são as virtudes deste intenso, mais que centenário, e quase-global movimento cultural.

Primeiro, existem questões de valor: o certo, o indesejável, o justo, o indigno acerca do gênero. Algo que aparenta justo pode ser injusto, e muitas vezes podem ser necessárias revisões radicais da moralidade difundida; eis o papel da crítica cultural e do debate moral, componentes clássicos do feminismo.

Alguns exemplos. (1) Que tipo de desigualdade entre homens e mulheres é indesejável? Nem toda desigualdade parece indesejável: em nossas instituições públicas de saúde, parece desejável separar pessoas candidatas ao exame de câncer de mama entre homens e mulheres, e privilegiar o antendimento das segundas. — (2) Que tipo de arranjo social seria justo? A muitas pessoas não parece que a igualdade jurídica entre os gêneros satisfaria nossas ambições de justiça social. Seria necessário uma igualdade mais concreta — mas qual? Pode-se ambicionar uma igualdade de oportunidades, como é possível não sentir-se satisfeita até termos igualade de poder social e “capital simbólico” entre homens e mulheres: o fim do preconceito na mente das pessoas. Podemos, ainda, buscar igualdade de resultados: uma representatividade completa. — (3) O que seria uma discriminação injusta, um ato de machismo ou sexismo? Por exemplo, o que conta como objetificação, violação da dignidade, e abuso sexual? Como devemos entender o contínuo entre não-abuso e abuso grave?

Convidamos quem está lendo a tentar desenhar um “cânone” de quais seriam os valores paradigmaticamente feministas. Me parece que nunca poderia haver um cânone específico, mas apenas uma coleção de valores mais ou menos relacionados, com uma multidão de discordâncias sobre detalhes frequentemente cruciais. O feminismo não é só composto de múltiplos grupos que atuam social e politicamente, mas também de múltiplas vertentes teóricas, múltiplas maneiras de pensar. A pessoa feminista liberal-social não irá concordar em detalhes (ou até em algumas questões gerais) com a feminista identitária nem com a feminista marxiana ou a feminista radical

Continuando, em segundo lugar existem os diagnósticos sociais, que são mais empíricos e factuais. Certos julgamentos não dependem apenas de uma caracterização valorativa de injustiça de gênero, mas também de uma caracterização descritiva de como as dinâmicas sociais funcionam.

Alguns exemplos. (1) Em que tipos situações concretas pode-se dizer que há preconceito, discriminação, injustiça? Por vezes, descrever as coisas de uma maneira mais realista pode desvelar problemas de gênero sutis, mas importantes, ou podem reveler que uma situação aparentemente problemática era, no fim das contas, benigna. — (2) Quais as causas do preconceito e dos diversos tipos de desigualdade? Isto é, quais os mecanismos sociais e culturais que geram e perpetuam o preconceito na cabeça das pessoas, a cada nova geração, e que transmitem as desigualdades sociais de era em era? — (3) Qual a psicologia do preconceito? Por exemplo, pode alguém contar uma piada preconceituosa sem ter preconceito? Para dar outro exemplo, é psicologicamente possível uma pessoa de um grupo minoritário ter preconceito contra este grupo minoritário? Ainda, poderia uma pessoa que tem preconceito contra um grupo sentir preconceito contra algumas pessoas deste grupo, mas não contra outras? — (4) Mais polemicamente, poderia existir preconceito contra maiorias sociológicas, e em que medida? Se sim, teria ele algum grau relevante de comparação com a dimensão social do preconceito contra minorias sociológicas, ou apenas uma comparação débil e marginal?

(Nota terminológica: uma maioria ou minoria “sociológica” não se define numericamente mas, digamos, culturalmente. O conceito nem sempre seleciona grupos nitidamente circunscritos, mas é mais ou menos o seguinte: É quem está por baixo em sentidos relevantes, como ser alvo de um preconceito bem-difundido por parte de pessoas com poder social e econômico.)

Já vimos, então, que existem perguntas perenes do feminismo sobre como a sociedade deve ser e como a sociedade é — ao que acompanha um julgamento dos defeitos da sociedade. Em terceiro lugar, existem questões ainda mais práticas e empíricas: prognósticos de atuação social, maneiras de ir do que é para o que deveria ser. Por exemplo, questões sobre como fazer o movimento feminista ganhar pessoas adeptas, ou modos de eliminar eficazmente o preconceito de quem já tem — ou, pelo menos, modos de evitar com que pessoas adquiram estes preconceitos em primeiro lugar. Agora estamos falando de persuasão, retórica, convencimento. Também falamos de estratégias para evitar a formação de preconceito e manutenção de injustiças. Por exemplo, poderia a representatividade na mídia e nos cargos de alto-escalão surtir algum efeito nestas duas dinâmicas de preconceito?

Estas três questões parecem depender fortemente do funcionamento da psicologia de pessoas individuais e de pessoas em agrupamentos (psicologia individual e psicologia social). Alguns exemplos. (1) Como deve ser a abordagem do ativismo em espaços públicos, nas redes sociais, e em grupos pequenos de pessoas? Que abordagens levam a mais mudanças de atitude e de perspectiva? — (2) É melhor reagir forte e publicamente a piadas e comentários machistas, ou conversar calma e individualmente com a pessoa? Novamente, o que levará a mudanças desejáveis nas pessoas?— (3) Vale a pena censurar e boicotar pesquisas que poderiam levar a mal-entendidos perigosos, como investigações bio-psicológicas acerca de diferenças de tendências inatas entre homens e mulheres? Ou será que a prática da censura levará a uma reação cultural contra o movimento feminista forte demais? (Há como fazer ativismo efetivo sem incomodar e criar reação, resistência do status quo?) — (4) Por fim, para o gosto das pessoas mais radicalmente inclinadas, vale a pena nos preocuparmos com os preconceitos do dia-a-dia, na crença que mudanças graduais podem consertar desnivelamentos de gênero, ou apenas uma revolução de ordem constitucional poderia consertar os problemas?

Sobram uma série de questões fora destes três tipos enumerados. Podemos pensar, por exemplo, sobre o que seriam ‘homens’ e ‘mulheres’ — um espectro polarizado, um contínuo, ou apenas um eixo dentre vários, num espaço multidimensional de gênero? Seriam categorias que denotam conjuntos de papeis sociais, conjuntos de características fisiológicas, ou algum tipo de auto-identificação? — Podemos pensar em outros problemas concretos também, problemás já canônicos como o problema do aborto, da prostituição, do abuso doméstico, e da desigualdade salarial — e tantos outros que foram e que estão sendo identificados e examinados por analistas culturais feministas há mais de um século, das mais variadas vertentes.

Quem está lendo e se auto-identificar como feminista pode comparar suas respostas com outra pessoa feminista e verificar que a gama de discordância não será simples. Não só isso, como imaginamos que cada pessoa enxergará um conjunto mínimo diferente de posições que caracterizam um ‘feminismo’ — basta defender igualdade de gênero jurídica, ou é preciso defender igualdade de gênero econômica e cultural? Basta defender estas ideias abstratas, ou é preciso simpatizar com boa parte das estratégias e objetivos do movimento feminista mainstream?

O debate público e o debate acadêmico continuam destrinchando estas ideias para desvelar quem de fato está certa. Não nos deixemos levar pela infrutífera questão terminológica, e nos empenhemos em espalhar ideias e examinar argumentos sobre ética, sociologia, psicologia social, estratégia de ativismo, filosofia do gênero, e outras questões pertinentes.

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